Muitas empresas investiram pesadamente em segurança da informação nos últimos anos. Firewalls, antivírus corporativos, filtros de e-mail, proxies, monitoramento de rede e diversas outras camadas de proteção passaram a fazer parte da rotina organizacional. Ainda assim, uma nova categoria de risco vem crescendo silenciosamente dentro das empresas e ela não necessariamente envolve hackers, malware ou ataques sofisticados.
A popularização de ferramentas de inteligência artificial generativa transformou a forma como profissionais produzem textos, analisam documentos, resumem informações, organizam planilhas e executam tarefas do dia a dia. Hoje é comum que colaboradores utilizem plataformas como ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot, Perplexity e diversas outras soluções para ganhar velocidade e eficiência. O problema é que, muitas vezes, esse uso acontece sem qualquer orientação, sem políticas internas e sem uma avaliação adequada dos riscos envolvidos.
Um colaborador copia um contrato inteiro para pedir um resumo. Outro envia currículos de candidatos para obter uma análise comparativa. Um terceiro compartilha uma planilha financeira para solicitar sugestões de organização. Em muitos casos, ninguém está tentando prejudicar a empresa. Ninguém acredita estar cometendo um incidente de segurança. Mas informações que deveriam permanecer sob controle corporativo podem estar sendo compartilhadas com sistemas externos sem qualquer supervisão.
A IA tem potencial para aumentar produtividade, reduzir custos, acelerar processos e gerar vantagens competitivas importantes. O problema surge quando sua utilização ocorre sem regras claras, sem treinamento e sem governança. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja: “Os funcionários estão usando IA?” Na maioria das empresas, a resposta provavelmente já é sim. A pergunta correta costuma ser outra:”Temos visibilidade sobre como eles estão utilizando essas ferramentas?”.
Quando falamos em vazamento de dados, muitas pessoas ainda imaginam cenários envolvendo invasores externos, ataques cibernéticos ou criminosos especializados. No entanto, alguns dos incidentes mais relevantes podem ocorrer durante atividades perfeitamente legítimas do dia a dia. Dados de clientes, informações financeiras, contratos, documentos internos, estratégias comerciais, códigos-fonte e relatórios confidenciais podem ser compartilhados com ferramentas de inteligência artificial simplesmente porque alguém deseja executar uma tarefa mais rapidamente.
Uma vez que a informação deixa o ambiente originalmente controlado pela empresa, passam a existir questionamentos importantes relacionados à confidencialidade, retenção, processamento, compartilhamento e governança desses dados. Esse fenômeno vem sendo chamado por muitas organizações de Shadow AI. O conceito lembra o antigo Shadow IT, quando colaboradores utilizavam ferramentas e serviços sem aprovação formal da área de tecnologia. No passado, isso envolvia plataformas de armazenamento em nuvem, aplicativos de produtividade ou sistemas não homologados. Agora o mesmo comportamento está acontecendo com ferramentas de inteligência artificial.
Funcionários instalam extensões de navegador, utilizam assistentes de IA, acessam plataformas online e compartilham informações corporativas sem que a organização tenha definido critérios claros sobre o que pode ou não ser enviado. Em muitas empresas, a liderança acredita que a IA ainda está sendo avaliada internamente. Na prática, dezenas ou até centenas de colaboradores já a utilizam diariamente.
A boa notícia é que esse cenário pode ser identificado.
Diversas organizações já possuem ferramentas capazes de fornecer visibilidade sobre o uso de inteligência artificial no ambiente corporativo. Firewalls, proxies, soluções de monitoramento, plataformas de auditoria e ferramentas de prevenção contra perda de dados (DLP) frequentemente conseguem registrar acessos a serviços de IA, identificar comportamentos de risco e detectar potenciais compartilhamentos de informações sensíveis. Além disso, logs de auditoria do Microsoft 365, Google Workspace, soluções EDR, controles de navegação e registros de exportação de dados podem fornecer indícios importantes sobre o uso dessas plataformas.
Diante desse cenário, algumas organizações cogitam uma solução aparentemente simples: proibir o uso de IA. Na prática, porém, essa estratégia raramente resolve o problema. A necessidade de produtividade continua existindo. A pressão por eficiência continua existindo. Os colaboradores continuam buscando formas de executar suas atividades com mais rapidez. O resultado muitas vezes é previsível: a ferramenta continua sendo utilizada, mas agora de forma oculta, sem qualquer supervisão ou orientação.
As empresas mais maduras têm adotado um caminho diferente.
Elas reconhecem que a inteligência artificial fará parte da rotina corporativa e concentram seus esforços em governar esse uso. Isso normalmente envolve a criação de políticas internas específicas para IA, classificação adequada das informações, definição de quais ferramentas são permitidas, treinamento contínuo dos colaboradores e implementação de controles técnicos compatíveis com os riscos do negócio.
Também passa pela definição clara de quais dados podem ser compartilhados, quais informações exigem tratamento especial e quais processos precisam de aprovação prévia. Governança de inteligência artificial não significa impedir inovação, mas criar condições para que a inovação aconteça de forma segura.
Por isso, empresas que desejam aproveitar os benefícios da IA precisam começar fazendo algumas perguntas fundamentais.
Existe uma política formal sobre uso de inteligência artificial?
Os colaboradores receberam treinamento adequado?
As áreas jurídica, compliance, segurança da informação e proteção de dados participam das decisões?
Existem mecanismos de monitoramento e auditoria?
A organização sabe quais ferramentas estão sendo utilizadas?
Muitas empresas ainda procuram uma solução mágica capaz de bloquear todos os riscos relacionados à IA. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra.
A organização sabe quais informações realmente precisam ser protegidas, quem possui acesso a elas e como identificar quando esses dados estão sendo compartilhados de forma inadequada?
A maior ameaça relacionada à inteligência artificial talvez não seja uma tecnologia fora de controle, mas pessoas bem-intencionadas utilizando ferramentas extremamente poderosas sem orientação adequada. As organizações precisam pensar sobre isso! Aquelas que criarem políticas, processos, controles e programas de capacitação antes dos incidentes acontecerem estarão muito mais preparadas para aproveitar os benefícios da inteligência artificial sem transformar produtividade em risco.
A governança de IA deixou de ser uma discussão do futuro.
CyberExperts: Governança de IA na prática
A adoção segura da inteligência artificial exige muito mais do que escolher uma ferramenta. Ela depende de processos, políticas, treinamento, avaliação de riscos, proteção de dados, segurança da informação e conformidade regulatória.
A CyberExperts auxilia empresas na construção dessa jornada por meio de projetos de Governança de Inteligência Artificial, incluindo:
- Diagnóstico de maturidade e riscos relacionados ao uso de IA;
- Políticas corporativas de uso de inteligência artificial;
- Adequação à LGPD e requisitos regulatórios;
- Programas de conscientização e treinamento para colaboradores;
- Workshops executivos para lideranças e conselhos;
- Palestras sobre IA, segurança da informação, privacidade e compliance;
- Mapeamento de riscos de Shadow AI;
- Apoio na implementação de controles e boas práticas de governança.
A inteligência artificial pode ser um dos maiores aceleradores de produtividade da história das empresas. Mas, sem governança adequada, também pode criar riscos invisíveis que poucos percebem até que seja tarde demais.
